LIMBO


Maria Claudia Gastal

Já li inúmeras vezes pessoas dizendo que não gostam de se definir para não se limitar. Entendo que definir-se pode ser mesmo uma demarcação de limites. No entanto, essa frase de impacto empoderadora escorrega facilmente à falácia.

E é falaciosa uma vez que, sendo gente constituída de língua e linguagem, o que a gente mais precisa é definição, é tornar o mundo cabível na palma da mão e na nossa compreensão intelectual. Evidente que as definições podem ser maleáveis, mutáveis, e que bom que é assim e que seja sempre assim. De outro modo, “comportar-se como mulher” ainda seria fechar as pernas e falar doce, e não sair à rua em luta e impor sua voz.

As definições são necessárias. Os esforços de uma galera são em torno de se conhecer e se definir: negra, branca, homossexual, transgênera etc. Porque, a partir de uma definição, é possível construir uma identidade, pertencer a algum espaço, pautar lutas, enxergar-se no mundo e nas relações com os outros, lidar com os desdobramentos de ser quem se é – inclusive você pode se definir como sem definição, como as pessoas não-binárias, por exemplo.

Mas as definições, como dito anteriormente, estão permanentemente em jogo, sempre em movimento. Venho pensando a respeito disso por conta de minha deficiência visual e como me vejo e como sou vista. Eu tenho uma deficiência visual que é, ironicamente, invisível, e tê-la é uma negociação constante comigo mesma e com os outros. Cresci numa família amorosa e que, por ingenuidade e confiança, me estimulou a me virar.

Evidente que há vantagens em aprender a se virar. Eu desenvolvi uma atenção auditiva enorme, porque precisava ouvir todos os fonemas dos professores e não perder a matéria que se mostrava inutilmente no quadro; porque precisava caminhar na rua com os ouvidos em pé, feito cachorro, para antecipar automóveis e passos se aproximando. Eu criei uma capacidade de adivinhação precisa, já que ao receber instruções sobre apertar no botão verde, cuidar meu número no painel eletrônico, falar ali com aquela moça na entrada, vou me jogando no instinto e na observação do que pode ser.

Só que o suposto saber me virar já me ferrou bonito: perder dois ônibus seguidos porque meu radar instintivo não previu o ônibus certo; dar de cara em orelhão, fio de aço, porta de vidro; desenvolver um problema crônico na cervical por passar a vida lendo materiais com fonte de tamanho regular; deixar de participar ativamente de muita aula porque eu simplesmente não conseguia ver o que estava escrito nos malditos powerpoints da faculdade. Ou seja, por eu não me entender como uma pessoa com deficiência visual, eu tentei me encaixar num mundo que não está preparado para mim.

Embora eu agradeça as demonstrações carinhosas de admiração pela minha autonomia, de eu ter dado um jeito a vida inteira, de ter superado os desafios, ter me graduado, pegado muito busão, trabalhado, estabelecido amizades etc., eu gostaria, do fundo do meu coração, que não tivesse sido exatamente assim. Eu gostaria de ter sabido, desde o início, que não era eu quem tinha um problema, mas que o mundo me colocava frente a problemas, e que eu tinha (e tenho) direto de exigir que ele me acolha, que dê um jeito também, que se vire, ora bolas.

Foi com 21 anos, repito, 21 ANOS, que eu descobri que minha deficiência tem nome: acromatopsia. E só daí eu pude procurar outras pessoas como eu. Só daí eu aprendi que minha trajetória de escola teve muito mais sofrimento do que teria sido necessário, que eu tinha direito à prova ampliada, a uma carteirinha de isenção no ônibus, a cotas.

Esse não foi, contudo, o ponto final.

De fato, abriu-se uma porta. Sabendo o que acontecia nos meus olhos, eu tinha palavra para dizer-me, para definir-me, para ser no mundo. Mas a definição, é claro, é incompleta. Quando estou com amigos com deficiência visual, eu me sinto uma farsa; quando estou com pessoas videntes, eu me sinto em desvantagem. É um jogo interminável de vítima e herói, um questionar-se constante (e sei que infinitamente) sobre quando estou me exigindo demais e quando estou me submetendo demais. A batalha é tão árdua de ter de provar aos outros que eu não enxergo tudo que esperam que eu enxergue, que não vejo cores, que eu não me faço de salame, a ponto de eu duvidar de mim mesma se não estou exagerando, pedindo demais.

Portanto, minha luta é também por ampliar a definição de pessoa com deficiência. De encaixar-me, definir-me, pertencer. Eu busco uma definição que me tire do limbo de ter uma deficiência visual invisível, às vezes até para mim.

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Maria Claudia Gastal

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