ESTE TEXTO NÃO CONTÉM NOVIDADES.


Maria Claudia Gastal

Meu irmão Guilherme me falou recentemente sobre o pessimismo hedonista: um fatalismo que se aconchega no privilégio de classe e se acomoda com uma cerveja na mão em frente ao Netflix na certeza (um tanto desesperada) de que atitude nenhuma vai mudar nada mesmo.

Eu acho que é de fato diferente dessa suposta neutralidade de quem lava as mãos e deixa um Cristo por dia ser crucificado. Eu vejo o pessimismo hedonista em amigos e conhecidos desencorajados de sonhar, que, parafraseando Ailton Krenak, pulam do avião e se deixam cair sem acionar o para-quedas colorido, numa aceleração suicida.

Entendo muito essa vontade de desistir, de curtir a fossa, cuidar da pele e dormir. Bolsonaro nos dá motivos infindáveis para pensarmos que, no fim, o que vale é a gente se dar um pouco de luxo pra ao menos sofrer lanchando. Isso se confirma no descrédito crescente na política, nas abstenções vencedoras dessa última eleição. E a minha própria tendência é achar que se a esquerda não se juntar com o “centro” (de direita) não tem jeito pra 2022.

Mas semana passada eu resolvi reler “Pedagogia do Oprimido” que, por mais que seja uma obra famosa, aclamada, louvada, amada e salve-salve, toda vez que a tenho nas mãos, me surpreendo com o tanta de esperança com que ela me nutre. É amor que transborda daquelas palavras, um incentivo a sonhar sem ter vergonha. Paulo Freire nos mostra que a descrença é objetivo da opressão, e por vezes eu caio nessa armadilha, lamentando pra tudo e pra todos de tudo e de todos. No entanto, conforme vou avançando na leitura, tenho uma vontade intensa de compartilhar com tudo e todos que dá, gente, dá pra sonhar.

Evidentemente não é um sonho ingênuo, um jogo do contente polianesco que tenta ver lado bom no horror e na morte a que estamos sendo submetidos diariamente. É humano que a gente sofra, se descabele e precise de um tempo pra respirar. Quase 180 mil mortes, desassistência, desemprego e a zombaria em forma de exposição de trajes não têm absolutamente nada de contente. Mas há que se sonhar. Sonhar em amor à vida é uma necessidade, um dever, eu diria, uma afronta a esse governo necrófilo.

Paulo Freire nos motiva a uma atitude de trabalho educativo constante, pra além da sala de aula, num esforço de diálogo humilde, de escuta, de consideração pelos outros, num exercício de palavra e ação, de conscientização conjunta para uma leitura mais lúcida da realidade.

Esse texto aqui não traz novidades, mas, para mim, o diálogo não é um caminho fácil, e achei que compartilhar um pouquinho dessa fagulha esperançosa que ando tentando transformar em fogueira talvez despertasse um pouco do fogo de outros que andam com o olhar gelado de quem se vai aos poucos em vida.

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Maria Claudia Gastal

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