VOCÊ ACORDA


Maria Claudia Gastal

Você acorda, porque você dormiu no horário correto. Isso é um avanço.
Você, cedo, abre a plataforma das aulas online, posta a prova com a devida antecedência. Isso é um avanço.
Você vai até a mesa da cozinha, onde seu companheiro termina o café da manhã. Pega uma xícara de café para você também, senta em frente a ele, e vocês conversam sem grandes preocupações.
É segunda-feira, por volta das 7h15min.
Às 7h30min, você está no seu posto no escritório da sua casa.
Às 7h35min, da janela, seu companheiro acena em despedida, porque ele está indo trabalhar.
Você ouve o portão da garagem abrindo, sempre muito estrondoso.
O carro que vocês estão alugando, para evitar o transporte coletivo nesses dias de pandemia, ronca. Os pneus deslizam para a saída.
Ainda não se passou um minuto.
Seu aluno, de 11 anos, mas que vê cores naturalmente, pergunta para você por que a questão 4 está com a resposta em vermelho.
O coração bate como um soco.
Você confere com ele. Ele afirma que sim, a partir da questão 4, as respostas estão marcadas em vermelho.
O vermelho.
O vermelho no preto.
O vermelho no preto não.
O vermelho no preto não faz diferença. Para você.
O vermelho no preto não faz diferença para você.
Você não viu.
Mas como podem as respostas estarem marcadas?
Mas como podem as respostas estarem marcadas se você fez um gabarito à parte?
Você ouve o portão bater, se fechando.
Você não consegue verificar o arquivo sozinha.
Você ouve o carro que vocês estão alugando para evitar o transporte coletivo nesses dias de pandemia fazer a curva à direita em aceleração.
Você não consegue conferir o arquivo sozinha.
Você confia em um garoto de 11 anos, que vê as cores naturalmente, porque naturalmente você não as vê.
E você deleta o arquivo.
Você deleta o arquivo da plataforma, apesar de você saber que fez um gabarito à parte e que as respostas não estão na prova que você postou.
São 7h36min. Você posta novamente o arquivo avisando que o anterior deu problema.
Mas o link para o arquivo que você deletou continua aparecendo.
O link para o arquivo que você deletou e que não existe mais, porque você posta novamente o arquivo avisando que o anterior deu problema, não leva a lugar nenhum.
E os pais ligam para a escola, porque eles não sabem apertar F5.
Os pais ligam para a escola e para você.
A coordenadora pedagógica liga para você.
Você diz que postou o arquivo errado, com as respostas.
É segunda-feira.
Na sexta-feira, ela tinha enviado um áudio rude e certeiro, pedindo que cuidassem o arquivo que vocês postariam. Cuidem para não postar o arquivo com as respostas.
Mas você fez um arquivo à parte com o gabarito.
Como que esse arquivo que você postou está com as respostas se você fez um arquivo à parte com a lista do gabarito?
Você engole em seco.
É segunda-feira, o primeiro dia de provas, a primeira prova do dia, a primeira prova em meio a uma pandemia, a primeira a ser feita a distância.
Você diz à coordenadora que você postou o arquivo com as respostas.
Você diz isso porque um aluno de 11 anos, que vê as cores naturalmente, disse isso para você.
Seu coração virou soco no peito.
Você não pode conferir o arquivo sozinha.
O portão da garagem fechou, e o carro alugado partiu, e você tem pouco tempo para tomar uma decisão.
Você tem de estender o prazo de entrega da prova em uma hora, porque os pais e os estudantes não sabem clicar no F5. Porque os pais e os estudantes não sabem que existe um F5 e qual sua função. E porque estão todos estreando uma prova, em casa, a distância, e as coisas que foram prometidas a acontecer de certa forma não aconteceram, porque você não pôde conferir se realmente as respostas estavam em vermelho, porque você não vê o vermelho no preto, mesmo sabendo que você não tinha marcado as respostas no arquivo oficial, então você deleta o primeiro arquivo. E todos desesperam.
E tem uma pandemia. Um medo de morrer, uma tensão entre escola-professores-pais-alunos, porque ninguém quer ser responsável por nada, mas todos são responsáveis por tudo.
Todos entregam as provas.
À tarde, chega um áudio rude e certeiro dizendo que a escola passou vergonha porque um professor postou a prova com as respostas. E que agora tem essa mancha.
Você pensa em contar que tem acromatopsia.
Você liga para a sua mãe.
Você se sente uma criança e liga para a sua mãe.
Envia para ela o primeiro arquivo. Ela diz que algumas partes de três ou quatro questões estão em vermelho.
Você pergunta se são as respostas.
Não, só a resposta da 4.
E, aí, você lembra.
Você lembra que tinha pensado em marcar as respostas no próprio arquivo da prova. Mas desistiu e resolveu fazer um arquivo à parte com a lista do gabarito.
Mas você tinha marcado uma resposta em vermelho e desistiu.
Isso tinha sido duas semanas antes, porque você tinha feito com antecedência. Isso tinha sido um avanço.
E você não vê o vermelho no preto, então esqueceu que tinha tentado marcar as respostas no próprio arquivo da prova e desistido.
Você esqueceu porque não viu.
Duas semanas atrás, você tinha pensado em marcar as respostas com uma cor mais clara, mas você quer ser padrão. Você marca com a cor padrão, ainda que você não a veja.
Você revisou a prova no domingo de noite. Procurou erros de digitação, de coerência, de respostas. Isso foi um avanço.
Você revisou sozinha, porque esse é o seu trabalho. Você é professora. Você é responsável por isso.
Você faz terapia porque tem dificuldades em tomar decisões e confiar nelas. Você faz terapia porque precisa sempre de validação de pai, mãe, companheiro. Você faz terapia para aprender a ser mais confiante e se virar sozinha.
Mas você não vê cores.
Você passa a vida perguntando para as pessoas que cores as coisas têm, que cores as coisas são.
Numa viagem, uns 15 anos atrás, enquanto olha pela janela, você comenta com seu irmão que lá bem pra trás tem uns morros. Seu irmão diz que não são morros, que são um amontoado de árvores. Ele diz que é melhor sempre você verificar com ele o que as coisas são antes de ir falando.
Você andava sempre segurando a mochila dele na saída da escola, porque você não enxergava no sol e não conseguia andar sozinha.
Em uma saída da escola, segurando a mochila dele, você bateu com a cara no orelhão.
Você faz terapia para confiar em você mesma.
E aí você lembra que você tem limites. E chora.
Você tem autopiedade.
Você sabe que dá conta, que é possível.
Mas nesse momento, você tem autopiedade.
Você pensa em contar que tem acromatopsia. Você pensa em contar para a coordenadora pedagógica que você tem acromatopsia.
Mas isso não consta no seu exame médico admissional. Você foi fazer o exame e não contou. Está registrado no seu exame médico admissional que você não é uma pcd.
Mas você é.
Vive como não fosse.
Mas é.
E você não conta.
Você faz terapia para confiar em você mesma.
Você se poupa do trabalho de explicar que tem acromatopsia para as pessoas. Elas esquecem, entendem pela metade, você se vira tão bem, nem dá pra perceber, você enxerga melhor do que pensa, poupa-se do vitimismo.
E se vitimiza. E chora.
Você se encontra nessa encruzilhada de ser uma pcd invisível. Você se vira tão bem, você dá conta.
Você pensa em como essa sucessão de fatos, cada detalhe dessa trama, daria um bom conto.
Um conto sem graça.
Você está com pena de você mesma. Você se vira tão bem sozinha. A escola não sabe que você é pcd. Você mal sabe que é pcd. Você sente raiva, porque foi injusto.
Mas você não vê as cores.
Você não enxerga a distância.
Você não enxerga no sol. Nem sob a luz forte, nem em telas brilhantes.
Mas as pessoas dizem que também precisam de óculos, por causa da miopia.
E que talvez você pudesse usar óculos mais fortes.
E quem sabe procurar uma cirurgia. Para a retina.
Você nasceu assim, já acostumou.
Você se vira tão bem sozinha.
Você está com pena de você mesma.
Você fez tempestade em copo d’água.
Você fez tempestade em copo d’água?

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Maria Claudia Gastal

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