A FUGA


Maria Claudia Gastal

As janelas estavam encostadas, fáceis de abrir a qualquer movimento. Na mochila, uma garrafa de água, o lanche da escola, algumas roupas de baixo, um casaquinho e variadas motivações para raiva. Sua saída seria à noite, após o silêncio final, que sucedia os berros coléricos e os urros excitados.

Tentou conter as palpitações com as mãos sobre o peito. Seria recomendável que em ápices como esse se evitassem a espera e o pensar sobre o pensar. Se manteve imerso, no entanto, nas obsessões daquela fuga. A janela até então parada a sua frente aumentava assustadoramente.

Colocou as mãos à altura garganta, visto que o coração subia por ali, e sentiu os ouvidos zunirem ensurdecidos. Dessa forma seria Impossível saber se a casa já estava em silêncio. Fez uma oração mentalmente, mas lembrou que pecava.

Pecava.

Sentiu o rosto todo contrair-se, a visão turvar e os lábios umedecerem. Caiu de lado em uma cena slow motion como nos VHSs. Aconchegou o rosto molhado no travesseiro, colocou o dedão na boca e, improvavelmente, dormiu.

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Maria Claudia Gastal

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