CAFEZINHO


Maria Claudia Gastal

Nina observava a chuva escorrer pela janela. Não eram os pensamentos tristes ou românticos que a sondavam, apenas o prazer de analisar as gotas rastejarem pelo vidro. Eram as substâncias que a enchiam de viva vontade.

Nina era uma pesquisadora. Tinha feito diversos experimentos com o intuito único de ver o que acontecia. Não sabia bem a que suas experiências poderiam levar, mas era movida à curiosidade. Geralmente recrutava seu irmão mais novo para suas investidas. Tendo ele como ajudante de cientista, exploravam o mundo químico com certo pendor alquimista.

Até então, suas tentativas haviam sido sempre sem grandes resultados ou consequências coercivas. Deixaram um sabonete dentro de um copo d’água a fim de vê-lo desfazer-se, mas, depois de alguns dias, ele só havia ficado macio, e a água opaca e densa. Reelaboraram o experimento e puseram um osso de galinha dentro de um copo de Coca-Cola, o qual, para sua frustração, também não se dissolvera. E, numa de suas tentativas mais ousadas, fecharam-se dentro do banheiro, tamparam o ralo da pia, encheram-na de água e despejaram dentro dela o conteúdo dos mais diversos cosméticos líquidos da mãe: perfumes, hidratantes e até mesmo creme dental. A mistura luminosa que circulava lentamente na pia tinha um cheiro doce e desagradável. Observaram hipnotizados a mistura por algum tempo sem saber muito bem o que fazer, até que a mãe abriu a porta do banheiro, e depois de um escrutínio breve, soltou alguns berros de raiva.

Foram forçados, portanto, a um período sabático, e seguiram a vida com outras atividades. Ocuparam-se com bolas de gude, carrinhos, desenhos e lápis de cor. Assim como as gotas da janela, o tempo passava tedioso e lento.

Os únicos momentos que quebravam a mansidão das ocupações triviais eram aqueles em que o pai de Nina, após o almoço, colocava um mindinho de água quente numa xícara, cobria-a com algumas colheres de café e batia tudo com ritmo e velocidade até virar uma massa negra de aspecto saboroso. Muitas vezes, o pai permitia que ela batesse a mistura até que ele tomasse a forma de lama. Depois que a xícara era completada com água, Nina bebericava e achava graça nenhuma.

Mas naquele dia modorrento de chuva, o pai de Nina ganhou uma cafeteira. Ela se voltou novamente para o interior da casa.

Nina pouco entendia como aquela engenhoca funcionava. Sob alertas furiosos da mãe, soube que não podia tocar na cafeteira, e manteve uma distância magnética do aparelho. Durante o lanche do fim da tarde, o pai deixou que os filhos provassem do café preto. As caras azedas dos dois protestaram um pouco de açúcar, que foi adicionado e satisfez os paladares. Ao término da refeição, todos estavam cansados demais para recolher as coisas da mesa e se retiraram para a sala da TV. Nina saiu da mesa e, junto do irmão, foi andar pela casa em busca do que fazer.

Sentaram-se no chão do corredor. Bateram papo sobre os mais diversos assuntos até lembrarem-se de que estavam com sede. O irmão comentou que gostaria de tomar café. E Nina prontamente se ofereceu a buscar. Entrou sorrateira na cozinha, pegou uma das canecas ainda sujas na mesa, serviu o café e o açúcar. Deteve-se. O ímpeto científico crescia dentro dela. Pegou o pote da margarina e o observou. Com a ajuda de uma espátula, tirou um pouco do conteúdo e o colocou na xícara do café. Depois disso, pegou o tubo de ketchup, o pote de maionese e vasculhou cuidadosa o resto da mesa. Não havia mais nada. Mexeu tudo com força. O café preto continuava preto. Com o coração sereno, desceu da cadeira, foi até o corredor e entregou a bebida ao irmão. Observou-o atenta por alguns segundos. Perguntou se notara algo de diferente. Ele ficou pensativo. Nina não se conteve. Descreveu-lhe os ingredientes e a receita. Para seu espanto, o menino começou a chorar desesperadamente.

Sem tempo de construir uma justificativa consistente, seu experimento foi brutalmente atacado e proibido. Nina se aposentou da vida de misturas. Magoada com o irmão e sem ter planos futuros, foi explorar a casa em busca de outros prazeres. Foi então que descobriu nas maquiagens da mãe um novo hobby: passar batom vermelho pelo rosto inteiro.

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Maria Claudia Gastal

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